seg, 17 junho 2024
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Caso de cão com raiva em São Paulo acende alerta para contato de animais com morcegos

A ocorrência de raiva em morcegos frugívoros e o aumento da interação de pets com esses animais silvestres coloca o Brasil em uma situação de risco para novos casos humanos da doença, afirmam especialistas.

Cientistas suspeitam que o caso de raiva em um cão registrado na semana passada em São Paulo seja fruto de contato com esses mamíferos alados. Os pesquisadores afirmam que, apesar de a vacinação ter avançado muito, é preciso ter especial cuidado com as animais de rua, que ainda tem populações desprotegidas e eventualmente encontram morcegos.

O foco das políticas de combate são os cães, mas é preciso mobilizar também os donos e cuidadores de gatos, dizem os cientistas, em um novo estudo. O trabalho envolveu USP, Universidade Federal do Paraná e Instituto Pasteur de São Paulo, e publicou recentemente uma revisão dos dados epidemiológicos e da literatura sobre o tema de 1986 a 2022.

Se, por um lado, a vacinação de cães foi bem sucedida e reduziu os casos a uma pequena fração do que eram há 20 anos, por outro, os casos ocasionais em animais de rua, sobretudo gatos, continuam ocorrendo na mesma proporção. Os pesquisadores alertam para o risco de essa brecha se tornar uma ameaça, também para humanos.

Em 2022, pela primeira vez, a Secretaria de Vigilância em Saúde registrou mais casos de raiva em gatos do que em cães no Brasil (nove contra sete). O número é pequeno, mas veterinários e cientistas acreditam que a incidência da doença nos felinos pode estar subnotificada, em parte porque a cultura popular sempre propagou o equívoco de que só cães contraem a raiva.

— Os proprietários de gatos dificilmente vacinam, porque é mais difícil capturar e levar para vacinar, e existe outro grande problema, que são os gatos de rua abandonados. Esses é que são a maioria dos felinos caçadores, muitas vezes mal alimentados, que comem morcegos — afirma Paulo Maiorka, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e coautor do estudo.

Enquanto na zona rural e na floresta os morcegos hematófagos (sugadores de sangue) são mais temidos por morderem gado e às vezes pessoas, na cidade a situação é diferente. Entre os casos urbanos em humanos está aumentando cada vez mais o registro de variantes do vírus típicas dos morcegos frugívoros e insetívoros.

O estudo de Maiorka e seus coautores, publicado na revista Frontiers in Public Health, argumenta que uma nova fase da política contra raiva no Brasil precisa adotar a perspectiva de “saúde única”, em que o bem estar de animais, de pessoas e do meio ambiente esteja integrado.

— Quando nós destruímos os ambientes naturais onde os morcegos vivem em equilíbrio com a doença na natureza, as populações se deslocam, e muitos podem encontrar abrigo nas grandes cidades, porque aqui nós temos inúmeros prédios abandonados, casas com sótão e estruturas desse tipo — diz o pesquisador.

Busca de contactantes
Maiorka teve experiência em lidar com um caso paulistano de raiva em 2011, quando fez a necropsia de um gato com suspeita de envenenamento numa residência perto do Parque do Ibirapuera. Ao mandar uma amostra para análise e receber um diagnóstico positivo para raiva, o pesquisador desencadeou uma campanha de mobilização para controle da zoonose, porque faziam na época 28 anos que a cidade não registrava um caso da doença.

Graças ao esforço coletivo, o que poderia ser um surto foi debelado antes de qualquer caso humano em São Paulo.

O cão encontrado com raiva na semana passada foi um caso isolado, também após mais uma década sem registros, mas é igualmente preocupante, diz Maiorka.

— Se esse animal foi abandonado, alguém o abandonou, e possivelmente o motivo do abandono foi o animal estar doente — afirma o pesquisador. — Depois do resgate, teve duas ou três pessoas que foram mordidas pelo animal e já estão em tratamento com soroterapia, mas seria importante identificar também a pessoa que abandonou, porque ela ou os familiares dela também podem ter sido agredidos pelo animal.

Busca de contactantes
Maiorka teve experiência em lidar com um caso paulistano de raiva em 2011, quando fez a necropsia de um gato com suspeita de envenenamento numa residência perto do Parque do Ibirapuera. Ao mandar uma amostra para análise e receber um diagnóstico positivo para raiva, o pesquisador desencadeou uma campanha de mobilização para controle da zoonose, porque faziam na época 28 anos que a cidade não registrava um caso da doença.

Graças ao esforço coletivo, o que poderia ser um surto foi debelado antes de qualquer caso humano em São Paulo.

O cão encontrado com raiva na semana passada foi um caso isolado, também após mais uma década sem registros, mas é igualmente preocupante, diz Maiorka.

— Se esse animal foi abandonado, alguém o abandonou, e possivelmente o motivo do abandono foi o animal estar doente — afirma o pesquisador. — Depois do resgate, teve duas ou três pessoas que foram mordidas pelo animal e já estão em tratamento com soroterapia, mas seria importante identificar também a pessoa que abandonou, porque ela ou os familiares dela também podem ter sido agredidos pelo animal.

A doença é letal, ele explica, e potenciais vítimas são orientadas a buscar tratamento imediatamente em hospitais. Registros de animais resgatados com raiva em outras capitais, como Recife e Brasília, não terminaram tão bem, e houve morte de pessoas por raiva contraída de gatos.

Buscar contactantes não costuma ser uma tarefa fácil, mas existem casos de sucesso no passado. Em Curitiba, a vigilância sanitária realizou em 2014 a busca de pessoas que tinham entrado em contato não com um pet raivoso, mas diretamente com um morcego infectado. Espalhando mensagens pelas redes sociais, conseguiram encontrar duas pessoas contactantes e colocá-las em tratamento, conta Maiorka.

Por FolhaPE

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