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Com ausência do poder público, adolescentes são cada vez mais atraídos por facções criminosas

Sem perspectiva de futuro – pela histórica ausência do poder público – e com promessa de dinheiro fácil e mudança de vida, adolescentes cada vez mais são atraídos para ingressarem em organizações criminosas. O problema não é novo e atinge todo o País, mas ganhou os holofotes em Pernambuco, nos últimos dias, após um rapaz de 17 anos confessar a participação no assassinato de uma criança em Itamaracá, no Litoral Norte, onde há uma guerra entre facções rivais pelo domínio do tráfico de drogas.

Estatísticas indicam que 332 adolescentes cumpriam medida de internação em unidades da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase) de Pernambuco, em dezembro de 2023. Desse total, 86 por ato infracional equivalente ao crime de homicídio ou homicídio qualificado e mais 21 por tentativa de homicídio. Também havia 48 garotos e garotas cumprindo medida socioeducativa por tráfico de drogas.

“O crime organizado avançou, a gente não pode negar. E o jovem tem uma entrada maior no crime. Hoje em dia você tem as redes sociais, você vê o outro com a camisa de marca, sapato, então o jovem quer ter aquilo. E qual o caminho mais fácil? Ele vai entrar no caminho mais fácil. Ainda sem formação moral, eles se sentem atraídos com promessas, inclusive de que se forem apreendidos só vão ficar na Funase no máximo três anos, mas tudo isso é uma grande falácia”, afirmou o delegado Ivaldo Pereira, titular da Diretoria Integrada Especializada da Polícia Civil de Pernambuco.

Segundo Pereira, o aliciamento de adolescentes para o crime é feito, em geral, por integrantes de facções especializadas em tráfico de drogas.

“O jovem que é mais impulsivo, que não tem uma base familiar estruturada, que não tem envolvimento na escola, nem bom aproveitamento, ele é facilmente cooptado. Os pais devem ficar atentos ao jovem que entra muito rápido para o alcoolismo, começa a consumir drogas, faz sexo antes. Ele não pensa no futuro, pensa no agora. O crime organizado está ciente disso, então aproveita essa idade para lançar desafios ao jovem, que é atraído nas comunidades”, pontuou o delegado.

AUSÊNCIA DE POLÍTICAS PÚBLICAS ELEVA NÚMERO DE JOVENS ATRAÍDOS PARA O CRIME

O cientista social Derick Coelho reforçou que a ausência de políticas públicas é determinante para que os adolescentes e jovens sejam atraídos para organizações criminosas.

“Quando falamos de políticas públicas, todas as mortes que são preveníveis e evitáveis são de responsabilidade do Estado. Afinal, a ausência do Estado com políticas públicas construídas e desenvolvidas ‘para e com’ adolescentes e jovens faz com que esse espaço vazio seja ocupado pelo crime. Não existe espaço desocupado. Se não é ocupado pelo Estado com políticas públicas de educação, cultura, lazer, trabalho e renda, o crime chega para educar à sua maneira, construir a cultura a partir dos seus símbolos e significados, gerando trabalho e renda, a partir da sua dinâmica”, explicou.

“É necessário combater o crime no campo das ideias e oportunidades, através de políticas públicas de cultura, lazer, saúde, profissionalização, trabalho e renda, comunicação e liberdade de expressão, cidadania e participação social, não apenas com a segurança pública e a dinâmica violenta ou repressiva que atinge os territórios mais vulneráveis”, completou.

No Recife, uma experiência bem-sucedida na prevenção à violência é o Centro Comunitário de Paz (Compaz), que conta com cursos profissionalizantes, atividades esportivas e culturais, mediação de conflitos, entre outros projetos. Mas há apenas cinco unidades – a mais recente inaugurada neste sábado (2), no Ibura, Zona Sul. As outras ficam no Alto Santa Terezinha, Cordeiro, Caxangá e Coque (Joana Bezerra).

Há muitas comunidades vulneráveis que precisam de maior atenção do poder público na capital pernambucana – a prefeitura tem um mapeamento delas, inclusive, desde 2013.

JOVENS SÃO MAIORIA ENTRE VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA

Ao mesmo tempo em que o número de organizações criminosas se multiplica no País, a guerra entre elas também se intensifica. E os adolescentes e jovens são as maiores vítimas.

Estatísticas da Secretaria de Defesa Social (SDS) revelam que 49% das pessoas assassinadas em Pernambuco, em 2023, tinham entre 18 e 30 anos. Além disso, 5% tinham entre 12 e 17 anos. Na maioria dos casos, as vítimas eram do sexo masculino e tinham ligação com atividades criminais – principalmente o tráfico de drogas.

No começo do ano passado, na construção do programa Juntos pela Segurança, o governo do Estado realizou um mapeamento dos municípios onde mais jovens eram mortos para identificar as motivações.

A promessa é de criar uma rede de proteção, com ações integradas entre as secretarias estaduais, para tentar tirar essa faixa etária da vulnerabilidade e, assim, reduzir os homicídios. Essa parceria, claro, precisa contar com apoio dos municípios.

GUERRA EM ITAMARACÁ TIROU VIDA DE BEBÊ E DE CRIANÇA

Jackson Kovalick Dantas Silva, de 10 anos, chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos – Acervo pessoal

A guerra pelo domínio do tráfico de drogas em Itamaracá, um dos cartões-postais de Pernambuco, resultou nas mortes de inocentes no final do mês de fevereiro. Os crimes, como indicam as investigações, foram praticados por jovens, integrantes das duas facções rivais. Mais de dez foram presos nos últimos dias, e a polícia investiga a participação deles nos assassinatos de um bebê e de uma criança.

No dia 17 de fevereiro, o bebê Gael Lourenço França do Carmo, de nove meses, foi assassinado a tiros em casa, no bairro do Pilar. A mãe e a avó também foram baleadas, mas sobreviveram. Até agora nenhum suspeito do crime foi preso.

Já no dia 22, três crianças foram baleadas dentro de casa, enquanto dormiam, no mesmo bairro. Uma delas, Jackson Kovalick Dantas Silva, de 10 anos, morreu. Esse crime teria sido uma vingança de parentes do bebê, segundo depoimento do adolescente que confessou a participação no ataque a tiros.

Mas os dois casos ainda estão sob investigação da Polícia Civil, que não revela detalhes do andamento.

De acordo com a SDS, 29 pessoas foram assassinadas em Itamaracá em 2023. Houve um aumento de 20,83% em relação ao ano anterior, quando 24 mortes foram contabilizadas pela polícia.

PREVENÇÃO AO CRIME PASSA PELAS ESCOLAS

O delegado Ivaldo Pereira afirmou que o programa Juntos pela Segurança tem um foco na prevenção à violência principalmente entre os mais jovens.

“Além da repreensão, com o cumprimento de mandados, os policiais do DPCA (Departamento de Polícia da criança e do Adolescente) também fazem um trabalho grande de prevenção, com palestras em escolas. Temos equipes que vão às instituições de ensino para fazer essa discussão e tentar evitar que mais jovens entrem para o crime”, disse.

A Secretaria de de Educação e Esportes de Pernambuco pretende abrir as escolas nos fins de semana, com ofertas de oficinas culturais e atividades esportivas, como forma de contribuir com o combate à violência.

O investimento anual deve ser de R$ 14 milhões, segundo prevê a pasta estadual. O projeto deve contemplar 120 escolas com quadras poliesportivas aptas a receberem as atividades, distribuídas em todas as regionais do Estado – incluindo territórios indígenas e quilombolas.

O projeto foi anunciado em novembro do ano passado, no lançamento do Juntos pela Segurança, mas não foi divulgada, ainda, a data do início dele.

Via: Ronda JC

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