Turismo e Paisagens Sertanejas – As oportunidades de turismo na região dos Lagos e Cânions do rio São Francisco, como a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Petrolândia/PE
17 de novembro de 2021 Postado em: Destaques Nenhum comentário
É tão grande a quantidade de atrativos e as opções de turismo nesta nossa Região dos Lagos e Cânions do rio São Francisco, foco da minha defesa de Mestrado em Portugal, que vale a pena dizer mais que duas palavras sobre eles. Tantos são que, ao apresentar essa defesa de Mestrado em Lisboa, em 25 de novembro de 2005, há 16 anos, o meu arguidor, o Professor Doutor Xavier, do Curso de Doutorado em Turismo de Portugal me disse ao final da minha apresentação: “Parabéns, Professor. Eu só não entendo como vocês têm tanto e não têm nada”.
Obviamente que ele se referia à falta de visão dos empresários e dos gestores desta região para a exploração, de forma preservadora desse riquíssimo tesouro e, de lá para cá, alguma coisa aconteceu. Pelo menos na região de Xingó e também começam a ser anunciadas algumas opções de turismo em Delmiro Gouveia, Piranhas, Petrolândia…
Embora a atividade de movimentação de pessoas para fins de lazer ou negócios, conhecida como turismo, exista no mundo há mais de 4 mil anos e haja exemplos de várias modalidades de turismo na Europa e no Velho Mundo, há séculos, no Brasil esta atividade é muito nova. O primeiro curso universitário de turismo no Brasil só foi criado em 1970. Foi a Faculdade de Turismo do Morumbi.
Visita do Imperador D. Pedro II à Cachoeira de Paulo Afonso. Cachoeira cheia e seca.
A visita do Imperador D. Pedro II à Cachoeira de Paulo Afonso, em outubro de 1859, há 162 anos é o fato mais marcante na região banhada pelo rio São Francisco nas terras da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.
Em 2009 se fez a experiência da retomada dessa Rota do Imperador, mas a ideia não teve desdobramentos.
E, há lugares em que a falta de cuidado com patrimônios naturais, arquitetônicos, históricos pode, infelizmente, levar à perda desse patrimônio…
Enquanto na Europa igrejas, ruínas, construções milenares, como o Coliseu, de Roma, por exemplo, são preservadas e atraem milhões de visitantes para conhecê-las, no Brasil, mormente em cidades do interior dos Estados, há um abandono desses ricos patrimônios de que se aproveitam outros para, aos poucos, os destruírem ou, distorcer a imagem para a qual foram construídos.
Desses patrimônios, um destaque são os templos religiosos, construídos em todo o mundo em lugares elevados, nos centros de grandes praças e com um cuidado nos seus detalhes, nas suas paredes, nas suas torres e colunas, nos vitrais que os embelezam, que enchem os olhos de qualquer visitante. Uma igreja, mesmo em ruínas, é sempre um lugar de reflexão.
Catedral de São Pedro em Genebra/Suíça – inaugurada no ano de 1.150
Em duas viagens que fiz a Portugal quando defendia minha tese de mestrado sobre o Turismo Sustentável na Região dos Lagos do rio São Francisco, tive a oportunidade de, em uma delas, visitar a Catedral de São Pedro ou Catedral de Genebra, da cidade de Genebra, Suíça, que está situada no centro histórico, foi inaugurada em 1.150, com uma mistura da Arquitetura gótica, românica e neoclássica e é, desde 1535, a principal igreja protestante da cidade.
Visita à Catedral de São Pedro em Genebra/Suíça – novembro de 2005 – Escrivaninha e cadeira de Calvino.
Além da impressionante construção apoiada em vigorosas colunas e a estrutura e beleza de suas naves, dos seus vitrais, duas outras coisas chamaram a nossa atenção: o silêncio e o respeito dos visitantes que ali chegavam e a preservação, em área de destaque, de um uma tosca escrivaninha e uma cadeira que foram utilizadas pelo reformador protestante João Calvino.
Um detalhe: para se subir nas suas torres, paga-se uma taxa. E todos querem fazer isso porque a vista panorâmica da cidade é igualmente impressionante.
Fiz essa referência porque na Região dos Lagos do rio São Francisco, as águas dos lagos de Moxotó afogaram a história, a vida e todo o patrimônio da centenária cidade de Glória, do Povoado Barra e muitos quilômetros de terras da Bahia.
Ensaios fotográficos de noivos tendo como cenário a Igreja do Sagrado Coração de Jesus/Petrolândia-PE
Ali já se fez ensaios fotográficos para noivos. Há algum tempo promoveu-se a gravação de um clip, o que, para muitos, foi uma forma de desrespeito ao local o que gerou, dentre outras ações, o pedido de tombamento desse patrimônio feito pelo IGH/Petrolândia.
“No fim de novembro de 2020, o Instituto Geográfico e Histórico de Petrolândia (IGH), entidade que busca preservar a memória da cidade, protocolou o pedido de tombamento junto à Fundarpe. A iniciativa contou com um abaixo assinado que recolheu mais de mil assinaturas.
Em publicação na edição do dia 12/01/2021 do Diário Oficial do Estado, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) deferiu a proposta de tombamento das ruínas da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Petrolândia, no Sertão de Pernambuco.” Diz o jornal Folha de Pernambuco em sua edição de 12 de janeiro de 2021.
Paula Rubens, presidente do IGH, diz: “O mundo todo quer visitar e queremos muito isso. Entendemos que a cidade pode ter essa vocação ao turismo, mas queremos um turismo responsável. Esperamos muito tempo achando que estava ali de certa forma protegida, o pessoal que transporta também tem interesse que seja preservada. O cenário é muito bonito, tem muita gente fazendo ensaio fotográfico, mas queremos que a Fundarpe envie seus técnicos. Podemos fazer 10 visitas por dia, 20 vai complicar, por exemplo”, completou a presidente do IGH.
Sobre o pedido de tombamento das ruínas da Igreja, diz a presidente do IGH: “O pedido foi protocolado no final de novembro, após o uso do espaço para a gravação de um clip do DJ Bhaskar, irmão gêmeo do também DJ Alok. O show provocou revolta na cidade de 37 mil habitantes.”
Diz o jornal Folha de Pernambuco que “Segundo a Fundarpe, quando há um pedido de tombamento, existe um processo inicial chamado de tombamento prévio. Quando há o deferimento, como o da igreja de Petrolândia, o bem passa a compor o rol de patrimônios tombados no Estado. A partir da publicação no Diário Oficial, ressalta a Fundarpe, o “bem já se encontra protegido legalmente contra destruição e/ou descaracterizações até que haja a homologação do tombamento com inscrição no Livro do Tombo específico e averbação em cartório de registro de imóveis onde esse bem estiver registrado”. Não há um prazo específico para a finalização do processo.
Palco amarrado na estrutura da Igreja do Sagrado Coração de Jesus/Petrolândia-PE
No início o mês de novembro de 2021, o assunto voltou a ocupar as redes sociais quando Milena Gomes que é Geógrafa, Mestra em Desenvolvimento e Meio Ambiente e membro do Instituto Geográfico e Histórico (IGH) de Petrolândia que lutou e conquistou, por lei, o tombamento e preservação da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, publicou uma nota bastante revoltada no Blog Gota D`Água quando moradores de Petrolândia amarraram um palco na estrutura destas ruinas, em processo de tombamento.
Em sua nota, a geógrafa diz: “Não vou fazer juízo de valor em cima do lazer alheio, longe de mim. Mas olha, um conhecimento básico do próprio lugar e um pouco de noção são recomendados a quem tem tanta “pose”, não? Nem like no Instagram vai dar pra angariar se a igreja cair. Pior, a gente perde o caminhar da atividade turística se perder o principal cartão postal do município. Agora ruim mesmo, pra mim, seria o apagar da nossa história.”
E conclui: “Façam a farrinha, o torneiozinho… o sei lá o quê que quiserem, mas SE ENXERGUEM, o que vocês ganham amarrando um palco no último patrimônio de pé do antigo município? Um lago tão grande? Isso é pra aparecer? Vale a pena? Vocês precisam disso?
Pois saibam que é crime. Eu espero muito que a Prefeitura tome providências porque eu mesma já estou tomando. A FUNDARPE e o ministério público estarão cientes esta semana ainda”.
Em outros lugares, no Brasil e em outros países, há até o cuidado de se proteger patrimônios inundados. Por ali, todo o cuidado sempre parece pouco, como é o caso de Itá, uma cidade submersa na divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, cuja igreja, inundada com a cidade, mereceu um cuidado especial para sua proteção e se tornou ponto turístico.
Enquanto isso, em outras terras brasileiras, nos sertões nordestinos, as ações de proteção a esses tesouros quase sempre são lentas e às vezes chegam tão atrasadas que se tornam desnecessárias porque o objeto a ser protegido nem existe mais…
Fonte: FolhaPE








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