13/02/2026 22:59

ITAPARICA- SOB O “AMIANTO” TENEBROSO

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Itaparica- Sob o
Quem chega a Itaparica, distrito da cidade Pernambucana de Jatobá, no Sertão do Moxotó, a 430 km do Recife, pensa estar entrando em mais uma dessas vilas sossegadas do interior, embora tenham todas elas hoje frota considerável de veículos automotores. Mas as ruas largas, sob o calor de um sol que sempre sugere o pico do meio-dia, vão aos pouco revelando uma característica assustadora: a presença abundante de amianto ou asbesto – o outro nome como o minério é chamado nas casas e prédios.

 O produto que libera imperceptíveis fibras de uma substância letal, causadora de doenças respiratórias fatais e diversos tipos de câncer, aparece em série nos tetos das construções e nas fachadas. Parada de ônibus, clube social, igreja, escola, residências e inacreditável até no hospital, todos tem sua cota do material, cuja industrialização e uso estão proibidos em Pernambuco desde 2004. O perigo também está nas caixas d´água, já que são construídas com a fibra letal e muitas delas ainda não foram substituídas.

Também os canos que levam água da adutora à comunidade eram de amianto, mas foram substituídos pela Compesa. Além de sua face visível, estampada nos telhados, recipientes para armazenar água e frente das edificações, o asbesto na Vila de Itaparica encontra-se disfarçado na estrutura das paredes, maquiado de massa e tinta e não se deixa facilmente identificar. Ninguém na comunidade havia atentado para essa realidade, que não só o telhado, mas também as paredes eram edificadas à base de asbesto.

Quando, nos anos dois mil, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) começou a vender as casas a quem já morava nelas, os futuros donos acharam que se tratava de um bom negócio, até porque os preços foram bastante camaradas, considerando-se o valor de mercado.

Antônio Santos, 63 anos, atualmente aposentado da Chesf, foi um dos que comprou o imóvel em que já vivia. Assim como tantos, ele nem imaginava que poderia estar adquirindo uma fonte potencial de danos irreversíveis à saúde. Antônio conta que apenas recentemente, enquanto o filho, que também reside lá, fazia uma reforma em casa, descobriu que as paredes são constituídas de placas encaixáveis de amianto.

Somando-se ao ambiente de potencial insalubre, a desinformação é um grande inimigo dos moradores de Itaparica. Só agora, mais de trinta anos depois que a Chesf ergueu a vila, os moradores, representadas pela associação Comunitária Itaparica, começam a despertar para a necessidade de tratar o assunto com seriedade e urgência. Sem querer instalar um clima de pânico entre os habitantes, o presidente da associação, Antônio Monteiro, fez contato com a Associação Pernambucana dos Expostos ao Amianto (APEA) para que ela examine o nível de contaminação que as pessoas estão expostas. “Esse é o primeiro passo. Vamos submeter o caso aos demais integrantes da diretoria”, disse Monteiro.

Diretora Jurídica da APEA, a advogada Gerusa Elvas informou que a instituição vai solicitar aos órgãos competentes os laudos necessários para determinar qual risco verdadeiro que os moradores correm.

Consequência da abundante quantidade de amianto empregada no local, fragmentos de telhas, pedaços de caixa d´água, blocos de paredes substituídas se espalham pelos terrenos ao redor do distrito, quando deveriam ser depositados em aterros sanitários próprios, pois todos contém a substância cancerígena.

Alheio aos perigos, Salu Menezes mora numa área mais periférica da vila, cria cabras e usa como cocho para colocar o alimento dos animais uma caixa d´água de amianto quebrada. “A caixa d´água de minha casa é de amianto”, revela ignorando que o perigo pode ir bem, além disso.

De acordo com o médico do trabalho Ciro Varejão, a presença do amianto no ambiente é potencialmente ameaçadora e a contaminação pode ocorrer quando as pessoas perfuram ou destroem peças feitas com o produto. Atualmente muitos proprietários estão fazendo reforma nas casas e isso exigiria cuidados especiais, incluindo o uso de equipamentos de proteção que evitem a inalação de partículas de fibra.

Pernambuco é um dos seis estados, ao lado do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Minas Gerais, que aboliu a industrialização e a comercialização do amianto. Em nível federal, a legislação, regulada pela portaria nº 001/1991 do Ministério do Trabalho permite a industrialização do minério, sob severas condições de proteção ao trabalhador. A medida também não permite que menores de 18 anos trabalhem nas áreas de industrialização do minério e determina o fornecimento de EPIS, incluindo roupas de trabalho que devem ser trocadas duas vezes por semana e lavadas sob responsabilidade da empresa. Mas especialistas afirmam que não há forma segura de manuseio do asbesto em produção industrial. Por isso, a Anamatra e Npt pediram ao STF declaração de inconstitucionalidade da portaria.
Redação Portal Jatobá

Fonte:issuu.com/trt6/docs/revista_dialogar_trt6_issuu

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