29/01/2026 22:44

Dificuldade com palanques em SP e Minas desafia o plano de reeleição de Lula

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Dificuldade com palanques em SP e Minas desafia o plano de reeleição de Lula

Poucos minutos após derrotar Jair Bolsonaro, em outubro de 2022, o agora presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso recheado de mensagens sobre a acirrada disputa. Após muita tensão, o petista triunfou com uma vantagem de apenas 1,8 ponto percentual sobre o rival. Embora a vitória tenha ficado marcada pela boa performance no Nordeste, onde venceu nos nove estados, o PT sempre considerou decisivos os resultados nos dois maiores colégios eleitorais do país. Em São Paulo, Fernando Haddad perdeu para Tarcísio de Freitas a corrida ao governo, mas foi ao segundo turno, atraiu 45% dos eleitores e ajudou a amealhar 11,5 milhões de votos para a campanha presidencial. Em Minas Gerais, Lula triunfou com 0,4 ponto percentual a mais que Bolsonaro e levou mais 6 milhões de votos. Em 2026, quando a perspectiva é de outra disputa acirrada, o desempenho nos dois redutos, que concentram um terço do eleitorado nacional, será de novo fundamental. A menos de nove meses da votação, o cenário preocupa o petista, que pena para montar palanques nesses estados.

A batalha mais difícil para Lula, ao que parece, será em São Paulo. O presidente e o PT tentam mobilizar uma espécie de tropa de elite de ministros para a disputa no estado. Embora ainda haja quem acredite que o vice Geraldo Alckmin (PSB) aceitaria ir para a disputa, ele já venceu quatro vezes a eleição ao governo paulista, essa hipótese é cada vez mais remota, pois é forte a pressão do partido dele para mantê-lo como vice de Lula. Hoje, as principais especulações giram em torno de Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento), cuja mudança de domicílio de Mato Grosso do Sul para São Paulo voltou a ser especulada. Definido um postulante ao governo, o outro pode concorrer ao Senado, talvez em parceria com mais um nome de peso na Esplanada, Marina Silva (Rede). Também ministro, Márcio França (Empreendedorismo), que já governou o estado, corre por fora, mas não empolga muita gente fora de seu partido, o PSB. Para o PT, nem mesmo o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSol), deputado mais votado do estado em 2022, pode ser descartado, apesar de ter prometido ficar no posto até o final do ano.

Colocar essa tropa de elite na linha de frente, no entanto, não é uma tarefa simples. O primeiro obstáculo é convencer alguns deles, como Alckmin, que prefere ser vice-presidente, e Had­dad, que quer apenas coordenar a campanha de Lula. Longe de ser apenas um problema de vontade pessoal, a formação da chapa passa pelos interesses partidários. Tebet, por exemplo, não só precisaria encontrar um endereço em São Paulo, mas também um novo partido, já que o MDB, onde sempre militou, é comandado no estado pelo prefeito da capital, Ricardo Nunes, e nacionalmente pelo deputado paulista Baleia Rossi, ambos aliados de Tarcísio. A opção seria se filiar ao PSB de Alckmin. Antes de tomar qualquer decisão, Tebet diz que precisa conversar com Lula, o que ainda não ocorreu. Já Marina Silva tem domicílio eleitoral em São Paulo, mas perdeu o controle do partido que fundou para uma de suas maiores oponentes, a deputada Heloísa Helena, que é adversária de Lula, e negocia filiação com PT, PSB e até o PSol.

Outro complicador para o governo fechar a equação é a indefinição sobre Tarcísio. Apesar de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ter anunciado em dezembro que será o candidato apoiado pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, há muita articulação visando levar o governador para a raia do Palácio do Planalto. A primeira pesquisa Genial/Quaest de 2026 mostrou que, embora eles tenham números parecidos no embate com Lula, o senador tem rejeição maior e mais dificuldade para conquistar o eleitor não bolsonarista. Tarcísio, por ora, coloca-se publicamente como candidato à reeleição, sem deixar de dar sinais nos bastidores de que ainda deseja a disputa presidencial, o que deixa em suspenso o xadrez eleitoral.

Para complicar, o PT não descarta a hipótese de surgir outro candidato mais à direita e mais bolsonarista que Tarcísio, que poderia abrir um palanque mais confiável para o Zero Um no estado. “Pode vir um outsider que tem engajamento na base bolsonarista. Tem mais água para passar debaixo da ponte”, diz Kiko Celeguim, presidente estadual do PT. Para o professor de política da Fespsp e da ESPM Paulo Niccoli Ramirez, o fato de que Tarcísio seja o franco favorito, e que a tradição paulista seja eleger conservadores, demanda mais estratégia do PT, como esperar os movimentos do oponente para apostar numa chapa mais assertiva. “É um problema histórico do PT em São Paulo, onde nunca conseguiu eleger um governador. O partido pode apoiar algum candidato de centro, visando a uma estratégia mais ampla, de ocupar espaços no Senado. Um candidato do PT é cada vez mais difícil”, avalia o especialista.

Em Minas Gerais, não coincidentemente um dos destinos mais frequentes de Lula, a situação tampouco é melhor. Por mais de um ano, os petistas apostaram no ex-presidente do Congresso Rodrigo Pacheco (PSD), mas, sem uma posição clara do senador, tateiam em busca de novas possibilidades. As discussões envolvem caciques partidários, como os presidentes do PT, Edinho Silva, do PDT, Carlos Lupi, e do PSB, João Campos, além de ministros como Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais). Sem muitas opções, o PT pode refazer uma aposta que não deu certo em 2022, ao apoiar o ex-prefeito Alexandre Kalil, agora no PDT, que ao menos consegue dois dígitos nas pesquisas contra o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), o franco favorito no embate.

A reaproximação é um sinal de desespero porque, há alguns meses, nem Kalil nem o PT estavam interessados nessa aliança. “Kalil refez as pontes ao voltar a suas origens, quando se filiou ao PDT. Estou conversando com todos, Lula, Edinho, Gleisi. E as negociações estão avançando”, afirma Lupi. Quem também está empenhada em montar algum palanque para Lula é a prefeita de Contagem, terceira maior cidade do estado, Marília Campos (PT), tida por muitos como a maior liderança petista em Minas e uma das favoritas ao Senado. “Frustrada a indicação do Pacheco, comecei a costurar outra alternativa, de uma candidatura que tenha voto, e acho que é o Kalil. Conversei com ele e me propus a ser uma articuladora da aproximação”, diz ela. Kalil pouco contribui para o desfecho ao se intitular independente, capaz de transitar entre direita e esquerda. “Converso com todo mundo. Eu posso apoiar a candidatura do Lula, eu posso apoiar a candidatura do Tarcísio. Tive uma conversa com o Edinho Silva, as portas estão abertas, mas eu também tenho portas abertas com outros partidos”, afirma. Ainda assim, Marília aposta numa saída pelo PT: “Acho que o Lula tem que comer mais pão de queijo. E o da casa do Kalil é ótimo!”.

Se o lulismo cambaleia para encontrar um nome em Minas, na direita o problema pode ser o excesso de alternativas. Favorito ao governo, Cleitinho embaralha o tabuleiro ao não bater o martelo sobre candidatura. Sem ele, o favoritismo pode ficar com o vice-governador Mateus Simões, que trocou o Novo pelo PSD e terá seis meses para governar Minas depois que Romeu Zema renunciar para disputar a Presidência. Há expectativa de que ele atraia outras siglas de direita, como o PL, que é forte no estado, mas isso não é certeza porque há quem acredite que o deputado Nikolas Ferreira possa entrar na disputa. “O Mateus Simões é vice do Zema, que é candidato à Presidência. Como faremos um palanque dele (Simões) no estado com o Flávio? A conta não fecha”, diz um membro do PL. Zema chama Simões de “braço direito”, mas admite que pode ter outros “bons nomes de centro e de direita”. Ele só descarta o PT, que comandou o estado entre 2015 e 2018 com Fernando Pimentel. Quem é candidato do PT já assinou o seu atestado de óbito eleitoral”, diz.

Lula inicia o ano sob um paradoxo: lidera as pesquisas, mas dificuldades não lhe faltam. O presidente é rejeitado por 54% do eleitorado e lidera um governo reprovado por 49% da população, números que são um fardo difícil de carregar numa eleição acirrada. Além disso, está apenas 5 pontos à frente de Tarcísio no segundo turno, diferença quase na margem de erro. Neste cenário, ir para a disputa com palanques frágeis em São Paulo e Minas Gerais pode complicar de vez as chances de obter o quarto mandato.

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

Via PE Notícias

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