Na ONU, Lula critica ingerência externa nas eleições sem mencionar EUA
22 de setembro de 2026 Postado em: Destaques Estados Unidos Lula Trump Nenhum comentário
O presidente Lula durante seu discurso na ONU em 2025 – Jeenah Moon/Reuters
“Não somos quintal de ninguém”, disse o presidente Lula (PT) em discurso na ONU nesta terça-feira (22) marcado por constantes referências contrárias à interferência externa na América Latina. Sem mencionar nominalmente os Estados Unidos, o presidente falou reiteradamente sobre as ações do governo de Donald Trump.
“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, disse. “Diferências ideológicas não devem ser obstáculo para integração entre vizinhos. A democracia está em xeque”, seguiu, após mencionar interferências praticadas pela “maior potência militar do mundo” (os EUA).
O tema permeou sua fala e voltou com maior clareza ao final. Lula mencionou as eleições do próximo dia 4, nas quais concorre à reeleição e tem no senador Flávio Bolsonaro (PL) o seu maior adversário. Afirmou que o país terá um pleito transparente e competitivo.
“Um pleito no qual os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão”, seguiu. E acrescentou, em referência indireta à família Bolsonaro: “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.”
“Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, continuou o presidente, que adendou que “a democracia brasileira pertence aos brasileiros”.
Lula abriu os discursos de chefe de Estado no evento, função que cabe tradicionalmente ao Brasil. Como era esperado, também falou sobre o crime organizado, bandeira dos EUA nas Américas:
“O Brasil não subestima o crime organizado. Estamos preparados para enfrentar os criminosos. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas armas.”
Lula está entre os chefes de Estado que por mais vezes discursaram na Assembleia-Geral. Hoje em seu terceiro mandato, ele já compareceu ao evento dez vezes —ficou de fora em 2005, na época do escândalo do Mensalão, e em 2010, quando preparava a campanha da ex-presidente Dilma Rousseff para sucedê-lo.
Há temas que aparecem em seu discurso independentemente da agenda doméstica ou internacional naquele ano: a necessidade de reforma do Conselho de Segurança da ONU, o órgão que, com seus cinco membros permanentes com poder de veto tem o maior poder decisório da organização; e a necessidade de combater a fome e pobreza no mundo.
Não foi diferente desta vez. Lula falou longamente sobre o fracasso do Conselho, que descreveu como não cumpridor de seu papel, e do imobilismo global. Lembrou, como é fato, que no ano passado o mundo acumulou o maior número de conflitos desde a Segunra Guerra Mundial.
Sobre os dilemais mundiais de hoje, fez menção especial ao que ocorre no Oriente Médio, mais especificamente em Gaza, com os ataques de Israel, e no estreito de Ormuz, afetado pela guerra no Irã.
“Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo [de Beyamin] Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”, disse, ao que logo somou: “[E] civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas.”
Neste ano, sua ida a Nova York se dá sob dois precedentes importantes. O primeiro, a eleição no Brasil daqui a duas semanas. O segundo, a frágil relação bilateral com o governo de Trump, que aplicou tarifas econômicas contra o Brasil, muito maiores que as designadas a outros países, e tem tentado interferir no processo internacional.
Como é de praxe, Lula esteve durante a tarde de toda esta segunda-feira (21) ajustando os itens finais do discurso. Boa parte do que disse na ONU já havia sido adiantado pelo petista em outras declarações dadas em Nova York, em especial a defesa da soberania brasileira contra interferências de outros países (leia-se, dos EUA).
Por Folha de São Paulo









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