Petrolândia, Memória Viva: em 1988, a velha Petrolândia esperava a hora de sumir sob as águas de Itaparica
17 de setembro de 2026 Postado em: Destaques História Pernambuco Pernambuco Notícias Petrolândia - PE Petrolândia Notícias Petrolândia-PE Sertão Nenhum comentário
Reportagem histórica do Diario de Pernambuco retratou os últimos dias da antiga cidade, a dor das famílias durante a transferência, os problemas enfrentados nas agrovilas, a luta dos atingidos e o nascimento da Nova Petrolândia
Em mais uma edição do Petrolândia, Memória Viva, voltamos a um dos momentos mais marcantes e dolorosos da história do município: os últimos dias da velha Petrolândia antes de seu desaparecimento sob as águas do reservatório da Barragem de Itaparica.
O registro está em uma extensa reportagem publicada pelo Diario de Pernambuco no domingo, 28 de fevereiro de 1988, na seção Cidade, página A-26. Com o emblemático título “Petrolândia espera a hora de sumir”, o texto foi escrito pelo jornalista Vandeck Santiago, enviado especial do jornal à região.
Naquele final de fevereiro, Petrolândia vivia uma contagem regressiva. Segundo o jornal, o cronograma da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) apontava 3 de março como a data para que as águas avançassem sobre a antiga sede.
A reportagem descreveu o que estava prestes a desaparecer: o povoado do Icó, a Rua Cachoeirinha, a igreja, o bairro Jardim do Amor e, por fim, toda a área da velha Petrolândia. Mais do que prédios e ruas, desapareceria fisicamente o cenário onde gerações haviam construído suas relações, seus amores, conflitos, alegrias, medos e lembranças.
Uma nova cidade existia, mas “não é a mesma coisa”
A aproximadamente 15 quilômetros dali, a Nova Petrolândia já havia sido construída para receber as famílias transferidas. Mas a existência de casas novas não eliminava a ligação afetiva dos moradores com a terra que precisavam abandonar.
O Diario de Pernambuco registrou histórias que revelam a dimensão humana daquela mudança.
Doroteu Medeiros, então com 72 anos e moradora do Icó, desmaiou, segundo a reportagem, quando o caminhão chegou à sua porta para transportar a mudança. O jornal relatou que, depois daquele episódio, ela já não dormia nem se alimentava como antes.
Terezinha Martins, de 67 anos, chorava durante as noites ao lembrar da antiga casa e dos vizinhos. Ao explicar o sentimento provocado pela mudança, comparou a situação à morte de alguém da própria família.
Outro personagem ouvido pela reportagem foi Luiz Gonzaga da Silva, então com 65 anos. Morador da zona rural, ele havia recebido uma residência na Nova Petrolândia, mas sua preocupação estava diretamente relacionada ao modo de vida que deixava para trás.
Acostumado a trabalhar com animais, Luiz não sabia onde colocaria seu gado, suas vacas e seus bodes.
Até mesmo a mudança na identificação dos endereços provocava estranhamento. Ruas e bairros conhecidos davam lugar à organização por quadras e lotes.
Casas eram derrubadas enquanto os últimos moradores partiam
À medida que março se aproximava, restavam cada vez menos pessoas na velha Petrolândia.
Famílias arrumavam os móveis e os colocavam cuidadosamente nos caminhões. Em outras partes da cidade, trabalhadores derrubavam paredes a golpes de marreta.
Para muitos, assistir à destruição da própria residência era insuportável.
Uma das declarações mais fortes registradas pelo jornalista partiu de Luiz Gonzaga:
“Cada marretada que eles davam na minha casa era como se batessem no meu coração”.
O cenário encontrado pelo enviado especial era de uma cidade praticamente abandonada. O jornal descreveu ruas desertas, vento batendo nas portas das casas vazias, poeira espalhada, pessoas recolhendo tijolos e poucas crianças circulando pelas proximidades.
Era a imagem de uma cidade fisicamente desaparecendo antes mesmo da chegada definitiva das águas.
Animais também preocupavam as famílias
Para quem vivia da criação, a mudança envolvia outra preocupação: o destino dos animais.
Maria Anita Pereira da Silva contou ao jornal que estava especialmente preocupada com seus bichos. Seu marido trabalhava como marchante e havia comprado três vacas e alguns bodes pouco antes da transferência.
Ela não sabia onde os animais seriam colocados depois da mudança. Segundo seu relato, desde os 15 anos estava acostumada a lidar com criação.
Essa preocupação aparece também nos versos reproduzidos pela reportagem:
“O que nos preocupa
É nosso reassentamento
Pasto para nossas cabras
Capim pra nossos jumentos
Sem terra, pasto e capim
Se acaba nosso sustento”
Os versos faziam parte de um folheto escrito por Fulgêncio Manoel da Silva, então presidente do Sindicato Rural de Floresta, sobre a luta relacionada à barragem.
Itaparica não faria desaparecer somente Petrolândia
A transformação atingia uma extensa área do Vale do São Francisco.
A reportagem informava que, além da antiga Petrolândia, as águas também cobririam Itacuruba, em Pernambuco, Rodelas e Barra do Tarrachil, na Bahia. Partes dos municípios de Floresta e Belém do São Francisco, em Pernambuco, e Glória, na Bahia, também seriam atingidas. Novas sedes haviam sido construídas para as localidades que desapareceriam.
Do ponto de vista energético, o então presidente da Chesf, José Carlos Aleluia, declarou ao jornal que a entrada da hidrelétrica em funcionamento representaria um acréscimo de 39% no potencial energético da região.
Mas, para os moradores, aquela grande obra tinha um significado muito mais imediato: abandonar suas casas e reconstruir suas vidas em outro lugar.
118 agrovilas para as famílias rurais
A transferência não estava limitada aos moradores da cidade.
Para as famílias das zonas rurais, a Chesf havia construído, segundo a reportagem, 118 agrovilas, dotadas de energia elétrica e água potável.
Celso Souza, advogado da Fetape que atuava na região, afirmou ao jornal que pelo menos 60% das pessoas transferidas, considerando moradores urbanos e rurais, haviam obtido alguma vantagem com a mudança. Entre os exemplos citados estavam famílias que deixaram barracos para ocupar casas de alvenaria e meeiros e arrendatários que passaram a possuir pequenos lotes.
Os representantes sindicais, entretanto, ressaltavam que os benefícios conquistados eram resultado da pressão dos próprios trabalhadores.
Maria Helita Ramalho Leal, do Sindicato de Petrolândia, recordou que, inicialmente, a Chesf não queria atender às reivindicações apresentadas pelas comunidades.
Irrigação, escolas e transporte preocupavam reassentados
Apesar das novas estruturas, havia uma série de problemas pendentes nas agrovilas.
Os sindicalistas afirmavam que animais como cabras, bodes, galinhas e vacas ainda não tinham locais assegurados. Também apontavam que escolas não estavam funcionando, faltava transporte regular e o sistema de irrigação ainda não estava concluído.
A irrigação era considerada fundamental para a sobrevivência econômica das comunidades.
Celso Souza advertiu que, sem sua implantação, as agrovilas poderiam se tornar inviáveis e gerar um grave problema social. Enquanto os agricultores não conseguiam produzir, a Chesf concedia, conforme a reportagem, uma ajuda de custo equivalente a 2,5 salários mínimos de referência por família.
Naquele período, trabalhadores rurais chegaram a ir ao Recife em busca do apoio do então governador Miguel Arraes. Também houve ocupação de um departamento da Chesf em Itaparica em uma mobilização relacionada à mudança e às indenizações de famílias.
Uma luta iniciada anos antes
A transferência de 1988 era resultado de um processo que vinha sendo acompanhado por mobilizações populares havia anos.
Segundo o Diario de Pernambuco, as obras da barragem começaram em 1976, enquanto as primeiras mobilizações dos sindicatos rurais ocorreram em 1979.
O jornal registrou que aquela disputa entre as populações atingidas e a Chesf chegou a provocar prisões de manifestantes, uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional, trabalhos acadêmicos e até uma produção audiovisual.
Um dos momentos mais marcantes ocorreu em dezembro de 1986, quando camponeses ocuparam o canteiro de obras da Barragem de Itaparica e paralisaram os trabalhos entre os dias 1º e 6.
Eraldo José de Souza, então diretor do Sindicato de Petrolândia, atribuiu as conquistas à mobilização popular:
“Aqui foi uma vitória do povo, não foi vitória de político nem de autoridade, foi do povo”.
Enquanto a velha agonizava, a Nova Petrolândia ganhava vida
A reportagem também apresentou um contraste impressionante.
Enquanto a velha Petrolândia estava silenciosa e praticamente vazia, a nova cidade vivia intensa movimentação.
O próprio jornal utilizou o título “Na Nova Petrolândia o clima é só de festas” para retratar aquele momento.
Caminhões circulavam de um lado para outro, famílias chegavam diariamente, novas casas estavam sendo construídas e o comércio mostrava-se ativo.
Segundo o periódico, a população da nova sede quase havia duplicado em relação à antiga. A cidade também recebia pessoas vindas de outros lugares, inclusive trabalhadores ligados às obras da barragem.
A nova cidade, contudo, também começava enfrentando seus próprios problemas.
O jornal registrou aumento na frequência de assaltos, reclamações sobre o saneamento e a ausência, naquele momento, de médico e de telefones instalados.
Os preços dos alimentos também preocupavam os moradores. A reportagem relacionava a alta à redução da produção agrícola na região durante os meses anteriores, em meio às transformações provocadas pelas obras.
Duas Petrolândias separadas por apenas 15 quilômetros
As fotografias que acompanharam a reportagem ajudaram a eternizar aquele momento.
De um lado estava a antiga Petrolândia, descrita pelo jornal como preparada, material e emocionalmente, para desaparecer do mapa. Em outra fotografia apareciam caminhões transportando as mudanças das famílias.
Outra imagem apresentava a Nova Petrolândia, localizada a aproximadamente 15 quilômetros da antiga sede, já mais habitada e projetada para ser maior.
As fotografias da reportagem foram feitas por Arlindo Maranhão.
Petrolândia desapareceu das margens, mas não da memória
A edição de 28 de fevereiro de 1988 do Diario de Pernambuco é muito mais do que um registro sobre uma obra de engenharia.
Suas páginas preservaram a memória de homens e mulheres que precisaram abandonar suas casas, propriedades, vizinhos, ruas e referências de uma vida inteira.
Também registraram as contradições daquele processo: novas casas e antigos sentimentos; infraestrutura e reivindicações ainda pendentes; esperança diante de uma nova cidade e tristeza pela perda daquela que havia sido construída durante gerações.
Hoje, quase quatro décadas depois, a antiga Petrolândia permanece de outra forma.
Está nas fotografias guardadas pelas famílias. Nos documentos. Nos jornais. Nas histórias transmitidas entre gerações. Nas lembranças daqueles que caminharam por suas ruas. E também nos vestígios que as águas do São Francisco guardaram.
É justamente para que essas histórias continuem sendo conhecidas que o Petrolândia, Memória Viva retorna às páginas de 1988.
Porque a velha Petrolândia desapareceu da paisagem, mas nunca desapareceu da memória de seu povo.
VEJA O JORNAL DA EPÓCA:
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FOTOS COLORIDAS COM AJUDA DA IA:
Redação do Blog PN Petrolândia Notícias | Fonte histórica: Diario de Pernambuco, domingo, 28 de fevereiro de 1988, seção Cidade, página A-26. Reportagem de Vandeck Santiago, enviado especial. Fotografias de Arlindo Maranhão.









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