Petrolândia, Memória Viva: a voz da cacique Hilda Entre Serras Pankararu permanece viva em entrevista histórica de 2012
13 de setembro de 2026 Postado em: Destaques História Pernambuco Pernambuco Notícias Petrolândia - PE Petrolândia Notícias Petrolândia-PE Sertão Nenhum comentário
Liderança indígena de Petrolândia, cacique Hilda Bezerra Barros deixou um legado de coragem na defesa do território tradicional Entre Serras Pankararu. Falecida em 3 de setembro de 2026, sua voz é novamente lembrada por meio da entrevista concedida à Revista Guerreiras – A Força da Mulher Indígena, publicada em 2012.
Nesta edição do quadro Petrolândia, Memória Viva, o Blog PN Petrolândia Notícias resgata uma entrevista histórica concedida pela cacique Hilda Bezerra Barros à missionária Manuela Schillaci, publicada em 2012 na Revista Guerreiras – A Força da Mulher Indígena, uma publicação dedicada às mulheres indígenas e suas trajetórias de resistência. Conhecida como cacique Hilda Entre Serras Pankararu, Hilda nasceu na aldeia Serrinha, na Terra Indígena Entre Serras, em Petrolândia, no Sertão de Pernambuco. Na entrevista, ela relembra décadas de luta pela recuperação e demarcação do território tradicional, fala sobre a espiritualidade do povo Pankararu, os Encantados, a confiança depositada pela comunidade em sua liderança e as dificuldades enfrentadas mesmo após a homologação da terra indígena. A entrevista ganha um significado ainda mais profundo após sua partida, ocorrida em 3 de setembro de 2026. Ao revisitar suas próprias palavras, preservadas na publicação de 2012, reencontramos não apenas uma liderança indígena, mas uma mulher cuja trajetória esteve diretamente ligada à defesa da terra, da cultura e da identidade de seu povo. A frase que dá título à entrevista traduz a essência de sua caminhada e de sua fé: “A gente tem aquela fé que sai da terra e dos espíritos da mata”. A seguir, o Petrolândia, Memória Viva publica a entrevista na íntegra, preservando o conteúdo originalmente registrado pela Revista Guerreiras – A Força da Mulher Indígena.
“A gente tem aquela fé que sai da terra e dos espíritos da mata”
Entrevista: Manuela Schillaci*
Hilda Bezerra Barros, ou cacique Hilda, nasceu na Terra Indígena Entre Serras, em Petrolândia, sertão pernambucano, aldeia Serrinha, há 73 anos. Como cacique de seu povo protagonizou uma das mais emblemáticas lutas pela retomada de terras tradicionais na história recente do movimento indígena. Liderando 100 indígenas, abriu, em 1978, uma picada para dentro de 8.100 hectares de terras, enfrentando a ira de fazendeiros e pistoleiros. “Comecei eu mais o finado João Tomaz essa luta. A área foi identificada e agora a maioria dos posseiros já saiu e eu ainda estou nessa luta”, diz. Mesmo com a terra de Entre Serras homologada, cacique Hilda segue na luta: restam ainda 400 não indígenas dentro do território tradicional. Porém, não é só isso: cacique Hilda ainda segue sendo criminalizada por pessoas interessadas nas terras do povo Entre Serras Pankararu. “Entrei na luta porque a nossa terra aqui de Entre Serras e de Pankararu toda dava 14.294 hectares. Com a continuação do tempo, 33 lideranças Pankararu abriram mão dos 8.100 hectares, que era do Entre Serras. Quando eles abriram mão eu comecei na luta. Tinha muita gente minha sem terra pagando a renda em cima das serras”, lembra cacique Hilda. Durante o ano de 2012, os indígenas de Entre Serras passaram por momentos difíceis em confrontos com posseiros que tentaram invadir a terra indígena. Cacique Hilda, há 40 anos liderando seu povo, foi criminalizada em rede nacional pela TV Record, sendo chamada de “cangaceira” – por outro lado, a reportagem acabou alcunhando ao cangaço uma simbologia pejorativa. Apesar dos conflitos e criminalizações, cacique Hilda reforça sua fé nas forças da natureza e na mobilização de seu povo para seguir adiante. Leia a íntegra da entrevista.
Entrevista na íntegra
A senhora pode contar como começou a luta pelo território de Entre Serras Pankararu?
A nossa terra era de 14.294 hectares e aí os Pankararu, 33 lideranças, abriram mão de 8.100. Quando eu descobri que eles tinham aberto mão da terra, fui na casa do finado João Tomaz e nós começamos a trabalhar pela terra. A gente resolveu mandar seis índios para Recife, que era a nossa Diretoria Regional. Eu entrei na ação abrindo as picadas pelos limites da terra. Depois que abrimos os limites da terra pelas picadas, fomos para Brasília, falamos com o presidente da Funai e ele mandou a equipe para identificar a área. Depois que a equipe veio e identificou a área, o presidente da República assinou a portaria da terra. Depois veio a demarcação e a homologação da terra. Na sequência começaram a tirar os posseiros, mas ainda falta a maioria. Meu povo hoje possui 300 famílias. Então, antes de iniciar a luta, nós não tínhamos terra. A terra era muito pouca para tanta gente e cada dia aumenta mais o número de famílias.
Essa terra é de ocupação tradicional. Conta um pouco da história da ocupação dela.
Chama de terra tradicional indígena porque era dos índios de antigamente, já era terra indígena de verdade. Nós temos nossa tradição, nós temos nosso terreiro sagrado e é uma terra indígena de verdade. É terra indígena que foi demarcada e homologada porque é terra indígena desde 500 anos para trás. Não é aquela terra que a gente vai chegar aqui e fazer uma área indígena sem ser porque nem o índio tem direito de fazer uma aldeia dentro de uma terra que não é indígena, tem que fazer dentro da terra indígena.
Como foi o processo de definir os limites da área indígena? Os mais velhos orientaram vocês nesse processo?
Nós abrimos as picadas pelos limites da terra indígena porque cada ponto tem um limite da terra. Os mais velhos já eram da área indígena Pankararu, a dos 14.294 hectares, e eles abriram mão das 8.100 e foi quando eu comecei a lutar mais o finado João Tomaz por esta terra que é indígena, porque eles deixaram uma terra indígena do lado de fora. Negociaram com a Funai e foi homologada a terra deles, mas os 8.100 ficaram de fora mesmo sendo tradicionais nosso. Cada lugar destes tem um marco de antigamente. Ali em cima tem um lugar com nome da Cruz da Velha, tem imburana, ferrada e assim continua. Por cada lugar onde é demarcada a terra a Funai finca um marco e bota uma placa que é terra indígena. Do marco para cá a gente sabe que é terra indígena, do marco para lá a gente sabe que não é. Aqui é uma terra sagrada, mantemos nossa tradição, nossos terreiros sagrados. Terra indígena é aquela terra onde nós nascemos e se criamos; era de nossos antepassados, bisavós, avós, pais e até hoje é.
Quais as principais dificuldades que o povo de Entre Serras Pankararu está enfrentando?
A maior dificuldade que a gente enfrenta é que não terminou de tirar o resto dos posseiros. A Funai mandou uma equipe para pagar 380 posseiros, mas os posseiros se recusaram a receber. Só três deles receberam. Esta é uma dificuldade muito grande e estamos passando por ela. É difícil porque não querem entender algumas coisas. Aqui sempre teve a presença indígena. Moravam uns índios e outros estão reassentados agora porque aqui tudo era cheio de posseiro, mesmo Mundo Novo, Lagoinha, Piancó, Salão, Vilanova, Folha Branca. Na Folha Branca mesmo tem um pouco de índio também. No Olho D’água do Leão quase tudo é índio, na Carrapateira a maioria também é toda de índio. Nós já temos mais de 300 famílias reassentadas depois que tirou os posseiros.
Como foram os primeiros tempos depois que começaram a retomar as terras?
Nós nunca entramos numa área retomando. O que nós fizemos foi abrir as picadas pelos limites da terra. Pode se dizer que foi uma retomada porque nós abrimos as picadas sem a autorização de ninguém. Se a gente fosse esperar para a Funai abrir estas picadas nunca que ia sair. E não dava mesmo. Tenho quantos anos? Eu tenho 40 e poucos anos que estou nessa luta, não é dois dias, e até hoje ainda não venci a luta toda porque não tirou o resto dos posseiros, mas eu tenho fé em Deus que vai tirar. Acho que deve ter ainda na faixa de 400 – ou mais.
Como é a relação com estes não índios que ainda permanecem na terra? Quantos já saíram?
Quando eles me veem falam que estou na mira. Eu nestes tempos me recuso até a ir à feira, porque eles não me olham com bons olhos, mas a gente se fala. Só sei que eu estou na mira e que não querem nem saber se eu tenho comigo 3.022 índios. Acham que apenas eu estou na luta. Falei com um funcionário da Funai que disse que no segundo semestre (2012) vai mandar o restante do dinheiro para pagar todo o mundo e quem quiser receber vai receber; quem não quiser vai acabar na Justiça. Da área já saíram uns 500 e tantos. Agora tenho toda a certeza que quando vier o pagamento (indenização) eles não vão querer receber. Será depositado em juízo. Eles são ligados ao Sindicato Rural, ao governador, aos prefeitos e tudo, são todos políticos. Tentaram me criminalizar pela televisão. Os interesses são que eles querem me sujar para me esmorecer e não resolver mais nada com a terra. Eles querem tomar minha força para eu não ter mais força para resolver o problema da nossa terra.
Como a senhora foi escolhida para ser cacique?
Eu fui escolhida pela comunidade. Eu fui escolhida pela comunidade todinha. Eu não tenho esta razão assim, mas eu confio muito nos espíritos das matas e tenho muita fé. Eu acho que ainda sou viva porque confio em Deus e nos espíritos das matas, porque eu sou mal vista em todo o lugar, o pessoal não me olha com bons olhos e quem me defende é só Deus e os bons espíritos das matas, nossos Encantados. Eu vivo nos pés da Mãe de Deus rogando por nós todos e até por vocês porque eles até rogam pelos que não é índio. Quando o pajé e o cacique morreram, as pessoas escolheram os novos pajé e cacique. O pajé é Cicinho e eu sou a cacique, escolhida pela comunidade.
Como o povo Pankararu vive a espiritualidade?
Eu acho que é uma coisa muito importante para nós, porque através de nossos Encantados são curadas as crianças, os adultos, nós temos nossa medicina e não precisa ir ao médico. Com nossa medicina que nossos Encantados ensinam para nós são curados nossos doentes. Isso é muito importante para nós. O ritual é o Deus nosso. Porque a fé que nós temos no nosso ritual é muito importante, é uma fé bonita mesmo. Porque abaixo de Deus tem os nossos Encantados que nos protegem. A maior fé que nós temos é em Deus e neles. Nossa força vem dos pés da Mãe de Deus e da terra. Porque a gente tem aquela fé que sai da terra e de nossos espíritos da mata. É muita fé. Eu tenho 73 anos e 40 de luta e tenho fé em Deus de que nós vamos vencer.
Como é ser mulher nessa luta?
Eu confio em Deus e em mim e luto pelo meu povo com muita fé e eu acho que se fosse um cacique era bom, mas quem foi escolhida fui eu e acho que eles (comunidade) têm muita confiança em mim e eu vou viver até resolver o problema deles. Não é fácil ser cacique. É muito difícil, porque todo o dia tem cobrança dos índios principalmente pela terra. O que os índios mais pedem aqui é a terra. Os índios querem a terra para trabalhar, para plantar, para criar e aí a gente fica muito perturbada nesta parte, mas eu estou feliz com isso. Meu povo confiou em mim e se eles achassem que era melhor um cacique homem, teriam escolhido um cacique homem, mas eles confiaram em mim.
Um legado preservado pela memória
Ao revisitar esta entrevista publicada em 2012, Petrolândia, Memória Viva preserva as palavras de uma das mais importantes lideranças indígenas da história recente do município. Mais do que recordar acontecimentos, este resgate mantém viva a voz de cacique Hilda, sua luta pela terra tradicional Entre Serras e sua profunda relação de fé com Deus, os Encantados, a natureza e seu povo Pankararu. Sua entrevista permanece como um documento histórico de resistência, identidade e esperança, registrado para que as futuras gerações conheçam a força de uma mulher que dedicou décadas de sua vida à defesa de sua comunidade indígena.
* Manuela Schillaci é missionária do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste. Fonte histórica: Revista Guerreiras – A Força da Mulher Indígena, publicada em 2012. Entrevista concedida por cacique Hilda Bezerra Barros e assinada por Manuela Schillaci. Petrolândia, Memória Viva — preservando histórias que não se apagam.
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Por Redação









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