Petrolândia Notícias – Resgate da história: a Igreja Matriz de São Francisco de Assis que ficou submersa com a Velha Petrolândia

Resgate da história: a Igreja Matriz de São Francisco de Assis que ficou submersa com a Velha Petrolândia

22 de agosto de 2026 Postado em: Destaques História Pernambuco Pernambuco Notícias Petrolândia - PE Petrolândia Notícias Petrolândia-PE Sertão Nenhum comentário


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Um dos símbolos religiosos da antiga Petrolândia permanece no fundo do Lago de Itaparica e guarda parte da memória de uma cidade que desapareceu sob as águas

Antes de existir a Petrolândia que conhecemos atualmente, havia uma cidade às margens do Rio São Francisco, marcada por ruas, casas, famílias, comércio e histórias que acabaram sendo interrompidas pela formação do reservatório da Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga, em 1988.

Entre as construções que ficaram para trás estava a antiga Igreja Matriz de São Francisco de Assis, um dos principais símbolos religiosos e arquitetônicos da Velha Petrolândia.

A história da igreja começou ainda no século XIX. Segundo os documentos da Paróquia de Petrolândia, a pedra fundamental foi assentada em 1884, como resultado da campanha missionária realizada pelos Frades Capuchinhos italianos na região. A construção também contou com o apoio de representantes locais da Estrada de Ferro, inaugurada um ano antes.

Uma construção que atravessou gerações

De acordo com os registros históricos da igreja, as primeiras etapas da obra compreenderam a construção da Capela-mor, duas sacristias e uma murada, onde foi improvisada uma latada para que as celebrações religiosas pudessem acontecer enquanto o templo ainda estava em construção.

A conclusão do prédio, entretanto, levaria muitas décadas.

Somente em 1961, com a colaboração do Núcleo Colonial do São Francisco, a igreja recebeu novas estruturas, entre elas três altares e a cobertura da Capela-mor.

No interior do templo, ao fundo e na parte superior, entre as duas torres, existia um coro com lastro e cercado de madeira, onde ficava a serafina, instrumento utilizado nas celebrações religiosas.

A igreja, portanto, não era apenas um espaço de oração. Era também um ponto de encontro da comunidade e uma referência na vida social e religiosa da antiga Petrolândia.

A reforma de 1970 e a valorização dos elementos locais

Em 1970, durante o período em que o Padre Cristiano esteve à frente da paróquia, o Conselho de Leigos concluiu uma nova reforma no interior da Matriz.

O espaço ganhou um local destinado ao coral, no altar lateral direito, enquanto o altar esquerdo passou a ser utilizado para a adoração do Santíssimo Sacramento.

Um dos aspectos mais marcantes da reforma foi a utilização de elementos característicos da região.

A parede frontal do altar recebeu decoração com pedras de fogo, abundantes no território de Petrolândia. Também foram utilizados uma cruz de jatobá e pés de troncos de angico na mesa do altar.

Mais do que uma mudança estética, a escolha desses materiais representava a valorização da identidade regional e os novos caminhos assumidos pela Igreja Católica no período posterior ao Concílio Vaticano II.

Novas mudanças antes da inundação

Em 1973, uma nova pequena reforma modificou algumas características do prédio.

As portas laterais foram fechadas com cobogós, segundo os registros, para evitar os “passeios dos fumantes e conversadores”.

A escada e o coro de madeira também foram desmontados devido à situação precária em que se encontravam e ao risco de acidentes.

O batistério precisou ser retirado para permitir a movimentação das portas laterais. Já dois grandes janelões do presbitério foram substituídos por basculantes, melhorando a ventilação do ambiente.

Posteriormente, o Padre José Maria, sucessor do Padre Cristiano, acrescentou um canteiro de cactos à parede de pedras do altar e construiu uma pia batismal utilizando pedras no mesmo padrão, reforçando novamente a presença de elementos da paisagem e da cultura sertaneja dentro do templo.

A despedida da Velha Petrolândia

Na década de 1980, a história da antiga cidade estava prestes a mudar definitivamente.

Com a formação do reservatório da Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga, a Velha Petrolândia foi inundada em 1988, dando lugar ao Lago de Itaparica.

Antes que as águas cobrissem definitivamente a antiga cidade, alguns objetos da Matriz foram retirados, entre eles os sinos, imagens religiosas, a cruz e móveis.

O restante da estrutura permaneceu no local e acabou submerso pelas águas do Rio São Francisco.

A antiga Petrolândia desapareceu da superfície, mas parte de sua história continuou preservada no fundo do lago.

Quase três décadas depois, a igreja foi reencontrada

Durante anos, a localização exata das ruínas da antiga Igreja Matriz de São Francisco de Assis permaneceu cercada de lembranças, relatos e curiosidade.

Até que, em 28 de outubro de 2017, os mergulhadores petrolandenses Samyr Oliveira e Fagner Barros conseguiram localizar as ruínas do templo no fundo do Lago de Itaparica.

A descoberta aconteceu após um trabalho de planejamento que levou em consideração mapas da antiga cidade. Os mergulhadores chegaram à estrutura a aproximadamente 19 metros de profundidade.

O reencontro teve forte significado para quem viveu na antiga cidade. As imagens registradas durante o mergulho permitiram que antigas gerações voltassem a contemplar, mesmo debaixo d’água, parte de um templo que durante décadas fez parte da paisagem e da memória de Petrolândia.

A descoberta também ganhou repercussão na imprensa, incluindo reportagem do G1, que registrou a localização da estrutura submersa.

Uma igreja, uma cidade e muitas memórias

Hoje, as ruínas da antiga Igreja Matriz de São Francisco de Assis representam muito mais do que uma construção submersa.

Elas são uma espécie de testemunho físico da Velha Petrolândia — uma cidade que precisou ser reconstruída em outro lugar, enquanto sua antiga sede permaneceu sob as águas.

Para quem nasceu na nova Petrolândia, a igreja pode parecer apenas uma estrutura escondida no Lago de Itaparica. Para aqueles que viveram na antiga cidade, entretanto, suas paredes carregam lembranças de batizados, casamentos, missas, festas religiosas, encontros familiares e momentos importantes de uma comunidade que teve sua história dividida entre antes e depois das águas.

A redescoberta realizada por Samyr Oliveira e Fagner Barros, em 2017, devolveu à população não apenas imagens das ruínas, mas também a oportunidade de olhar novamente para um pedaço da cidade que parecia perdido para sempre.

A história da Matriz de São Francisco de Assis permanece, assim, ligada à própria história de Petrolândia: nasceu no século XIX, atravessou gerações, foi reformada e transformada de acordo com seu tempo e, finalmente, acabou submersa junto com a antiga cidade.

Debaixo das águas do São Francisco, permanecem as ruínas. Na memória dos petrolandenses, permanece a cidade.

Informações:

  • Livros Tombo da Paróquia de Petrolândia – PE.
  • Relatório anual dos Capuchinhos, de 26 de janeiro de 1885, com trecho publicado no Diário de Pernambuco, edição nº 41, de 30 de novembro de 1885.
  • Registros e relatos sobre a localização das ruínas da Igreja Matriz de São Francisco de Assis, realizada pelos mergulhadores Samyr Oliveira e Fagner Barros em 28 de outubro de 2017.
  • IGH – Petrolândia

Por Redação | Imagem criada com ajuda da IA

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