Presos do regime semiaberto trabalham na colheita de uvas no Sertão de PE
4 de outubro de 2017 Postado em: Destaques Nenhum comentário
Os presos estão tendo uma chance de recomeçar (Foto: Emerson Rocha)
A produção de uva do vale do São Francisco vem se destacando ao longo dos anos pela qualidade e por dar origem a alguns dos principais vinhos do Brasil. Em Petrolina, no Sertão de Pernambuco, a fruta está virando sinônimo de recomeço para 25 detentos do regime semiaberto da Penitenciária Doutor Edvaldo Gomes.
Desde o dia 22 de setembro, de segunda a sábado, durante 48 horas semanais, o grupo trabalha em uma fazenda da região. As mãos que um dia foram utilizadas para cometer crimes, hoje estão colhendo uvas que serão vendidas dentro e fora do país.
Condenado a 14 anos de prisão por homicídio, José*, 47 anos, está há sete atrás das grades. Ao lado dos companheiros, tenta reescrever a história de sua vida. “Tem gente que acha que não tem como [ressocializar], mas tem. É como falaram na reunião: a gente aqui é tipo uma mancha, mas essa mancha vai sumir da alma da gente, da vida da gente, entendeu? A gente quer voltar a fazer tudo direito, voltar ao normal que era”, diz.
A cada três dias trabalhados, os presos ganham a redução de um dia da pena (Foto: Emerson Rocha)
Para trabalhar na fazenda, os presos passaram por um processo de seleção. Segundo Raniele Aquino, supervisor de laborterapia da Penitenciária Dr Edvaldo Gomes, foram avaliados pareceres psicossociais e o comportamento dentro da prisão. Além disso, os reeducandos passaram por entrevistas. Ele conta que a iniciativa da parceria veio da fazenda.
“A princípio, a fazendo nos procurou porque eles já tinham visto um trabalho semelhante e viram que a gente tinha uma quantidade de reeducandos do regime semiaberto. Fizemos um treinamento com eles e, depois de tudo pronto, a fazenda e a Secretaria-Executiva de Ressocialização providenciaram toda parte burocrática do convênio. Quando ficou tudo pronto, eles começaram a trabalhar”, explica.
O convênio feito entre o estado e a fazenda beneficia 100 presos.
Destes, por enquanto, apenas 25 estão trabalhando. De acordo com Raniele, o número aumentará gradativamente. “A tendência é ir aos pouco colocando esse pessoal. É um trabalho que a empresa está gostando e eles agarraram essa oportunidade e não querem largar porque é uma forma que eles têm de resgatar a sua dignidade e se relocarem novamente na sociedade”.
O diretor-geral do grupo que administra a fazenda, Arnaldo Eijsink, destaca os pontos positivos do projeto. “Ainda está um pouco cedo, mas o resultado previsto deste projeto é a integração social, mesmo depois deles estarem fora, com um possível emprego garantido. Eu acredito em uma satisfação, na felicidade dos familiares deles sabendo que hoje eles estão no campo trabalhando. É um conjunto de pontos que deixa todo mundo feliz”.
Mãos que já foram utilizadas para cometer crimes, hoje colhem uvas (Foto: Emerson Rocha)
Além do ganho social, o empresário vê benefícios na produtividade da fazenda. “É impressionante a qualidade e a produtividade deles. No sentido de quando comparados com os outros colaboradores nosso, não perdem em nada. Não deixam nada a desejar. É ótimo para nós quanto a resultado econômico. Passa a não ser um projeto encarado como apoio social, uma ONG, ao contrário. Aqui, economicamente, está sendo ótimo. Fecha com chave de ouro o nosso projeto social. Inciamos com 25 e estamos avaliando os dois lados, em conjunto, para chegar em um número maior”.
Redução nas penas
A cada três dias trabalhados, o preso tem direito a redução de um dia na pena. Ainda de acordo com a Lei de Execuções Penais, que rege o contrato da mão de obra carcerária, o preso recebe um valor correspondente a 75% do salário-mínimo, sendo 25% destinado ao recolhimento do pecúlio, que só poderá ser utilizado após o fim da pena.
Antes de ir preso, Cláudio*, 41 anos, diz que trabalhava como agricultor. Condenado a 17 anos, ele está há seis no presídio de Petrolina. Quando cumprir sua sentença, sabe que enfrentará preconceitos. No entanto, quer mostrar que é possível recomeçar.
“É uma oportunidade que nós está tendo para diminuir nossas sentenças para logo a gente está no meio da sociedade. Quando terminar minha pena eu espero continuar da forma que eu vinha trabalhando, continuar indo para a igreja. Nós, que somos ex-presidiários, somos malvistos pela sociedade, mas temos que mostrar que não somos da forma que a sociedade pensa”, garante.
Do G1/Petrolina








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