08/02/2026 17:34

Sítio do Pilar: a descoberta arqueológica no Recife que marca a história de todo o Brasil

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Esqueleto do Sítio Arqueológico do Pilar – Foto: Melissa Fernandes/Folha de Pernambuco

Crânios, fêmures, costelas, dentes. Ossos podem contar a história e os hábitos de uma determinada população e, consequentemente, de um local. Com base num arsenal de mais de 130 esqueletos, cientistas buscam revelar como era a vida dos primeiros habitantes do Recife, num achado arqueológico que pode ser o maior cemitério colonial do Brasil.

Uma descoberta que, a partir do passado na Capital pernambucana, termina por revelar partes até então desconhecidas da própria história de todo o País. Esse é um marco para o Recife e um passo indispensável para avançar em um verdadeiro descobrimento enquanto nação.

O Sítio do Pilar, como foi batizado o terreno, está na comunidade homônima, no Bairro do Recife, área central da cidade. No espaço, foram encontradas mais de 130 ossadas, algumas do final do século XVI e início do século XVII, além de cerca de 200 mil fragmentos e objetos que estão sendo analisados para entender os hábitos e conhecer detalhes sobre quem eram as pessoas que viviam no local, nas décadas de 1500 e 1600.

Esqueleto do Sítio Arqueológico do Pilar. Foto: Melissa Fernandes/Folha de Pernambuco

O que esqueletos, em sua maioria, de mais de 1,70 metro podem dizer sobre o passado? Como fragmentos de utensílios de louça expõem as preferências estéticas de um povo? E mais, o que o fato de apenas um bebê estar enterrado em um caixão, enquanto os corpos “adolescentes e adultos” eram amontoados um sobre o outro, diz sobre os ritos de uma comunidade?

Por enquanto, essas perguntas seguem sem respostas, mas as possibilidades instigam todos que estão à frente desse processo de escavação e intervenção arqueológica, coordenado pelas historiadoras e professoras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Ana Nascimento e Suely Luna. 

Ao lado da sua equipe, Ana também viu emergir da terra, depois de muito escavar, além dos esqueletos, ruínas de um antigo forte que estava soterrado, localizado, mais precisamente, na quadra 45. 

“Existia um forte no local e, após escavações, nós identificamos parte da base dele. Em cima dos escombros, foi construída uma igreja (Nossa Senhora do Pilar, de 1680), que está de pé até hoje. Além disso, temos datações de esqueletos que são do final do século XVI e início do XVII”, afirma Ana. 

Historiadora Ana Nascimento na base do Forte de São Jorge. Foto: Melissa Fernandes/Folha de Pernambuco

Como começaram as descobertas

As pesquisas na área começaram em 2010, após uma avaliação para a construção de habitacionais destinados à população carente da região. Por se tratar de um bairro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Prefeitura do Recife contratou, à época, os serviços da Fundação Seridó que, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), realizou vistoria arqueológica e descobriu os primeiros vestígios de um possível cemitério colonial na área. 

O processo de construção das moradias foi então interrompido e as buscas, ampliadas. O espaço foi dividido em seis quadras (25, 40, 45, 46, 55 e 60). A Fundação Seridó manteve contrato de pesquisa do Sítio até 2013 e, nesse período, foram encontrados cerca de 30 esqueletos, que atualmente estão em laboratórios da UFPE para estudo e análise.

Dois anos depois, no fim de 2015, a Fundação Apolônio Salles (Fadurpe), entidade formada por docentes da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), assumiu a responsabilidade do estudo do Sítio do Pilar e já resgatou mais de 100 esqueletos até o momento. O contrato da equipe segue até março de 2023, e a Prefeitura do Recife estima investimento de R$ 1,3 milhão na contratação de instituições para trabalhos de pesquisa na área.

Forte de São Jorge e enterramentos antes do período holandês

Historiador e professor do Departamento de História da UFRPE e responsável pela pesquisa histórica do Sítio do Pilar, Bruno Miranda lembra que iconografias datadas do início do século XVII, período anterior à ocupação holandesa (1630), já apontavam naquela área a existência de um forte português, denominado Forte de São Jorge. Responsável pelos levantamentos cartográficos e documentais do espaço, ele conta que o local era ilustrado nas imagens com estrutura semelhante à de um castelo, devido às muralhas muito elevadas.

FolhaPE

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